quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Intervalo

 Quem te disse ao ouvido esse segredo 
Que raras deusas têm escutado —
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?

Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca —
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Arranque Centro Escolar

Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, escreveu que “o Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo / O que há é pouca gente para dar por isso”.
Todos os anos, quando recomeça o ano letivo, aquilo de que mais se fala, pelo menos em Portugal, é se as escolas estão em condições de abrir e se todos os professores estão colocados. Por cá, este arranque letivo trouxe o aliciante da abertura de uma nova escola, e nos primeiros dias houve questões por resolver, o que trouxe o descontentamento de muita gente. Falo dessa abertura neste post, que será, provavelmente, o último post do DeCampoMaior sobre educação.
Abrir uma escola nova é uma tarefa difícil, tanto pela quantidade de trabalho, seja pela qualidade exigida. A tarefa é difícil e há pouca gente a dar por isso. Houve falhas. Não há refeitório e nas saídas houve congestionamentos. E mesmo que o diretor do agrupamento passe uma noite em claro a fazer os horários, esta ação quixotesca, apenas mostra que, ou não faz equipa, ou fazendo, ele está sozinho no cumprimento das tarefas. Parece que, mais uma vez, há pouca gente a dar por isso.
É preciso que as instituições funcionem, que a Associação de Pais mostre sinais de vida e que o Conselho Municipal de Educação mostre para que serve. A responsabilidade da educação do concelho não pode ser de uma pessoa só. Mas, parece-me que há pouca gente para dar por isso. Os bons resultados nascerão deste equilíbrio entre o “Binómio de Newton” e da “Vénus de Milo”, que é como quem diz, entre escola e comunidade,...toda a comunidade!.

Agora, só me resta apelar ao trabalho de todos, à tranquilidade e à paciência, para limar as arestas iniciais. Só dessa forma  o centro escolar será um sucesso.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Propostas de aquém e além

Já fora esbelta, dessas mulheres que explicam o amor. Pois que, desde que enviuvou, ela se desentreteu, esquecida de ser. Agora era mulher retaguardada, fornecida de assento. Senhora de muita polpa, carnes aquém e além roupa. Superlativa, sentava-se no próprio peso. Socorri-me deste jogo de palavras, de um livro que li recentemente, para descrever uma amável senhora, que um destes dias me abordou, caminho do trabalho, com uma dúvida eleitoral. Deixei a máscara por instantes e tentei esclarecer a simpática senhora sobre as propostas eleitorais sobre as pensões.
A dúvida básica residia no palavrão plafonamento. O programa eleitoral da coligação prevê a introdução para as gerações mais novas, de um limite superior, para efeitos de contribuição, que em contrapartida também determinará um valor máximo de uma futura pensão. É o plafonamento horizontal, que se destina a pessoas com salários mais elevados.
O PS propõe a redução temporária da taxa social única a cargo dos trabalhadores, pretendendo que este valor esteja disponível para o consumo. A medida não é facultativa (como a da coligação) e tem como contrapartida uma redução das futuras pensões. É o que se chama plafonamento horizontal. O plafonamento não garante a sustentabilidade, e pelo contrário, a curto prazo implica perda de receita.

A superlativa senhora, talvez tenha ficado com mais dúvidas, mas segui caminho com o sorriso de ter tentado esclarecer o tema. A quem ler também espero ter ajudado.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O Grande Inquisidor

Hoje é daqueles dias que não tenho tema, mas tenho muito para dizer. Por isso, demorei-me, entre os livros da estante, pelo “Os Irmãos Karamazov” de Fiodor Dostoiévski. Há um capítulo no livro de um grande significado e uma história dentro da própria história. Trata-se do capítulo do Grande Inquisidor. Neste capítulo, a imaginação imensa de Dostoiévski, relata através de uma das personagens, a vinda de Cristo à terra no tempo da Inquisição Espanhola. Jesus Cristo, deambulando pelas ruas de Sevilha, vendo como anda a humanidade, acaba por ser preso e condenado pelo seu regresso à terra. O história absurda, recorda-me o absurdo de um conhecido meu, que dando ares de grande inquisidor, é bastante crítico para não dizer feroz viperino e difamador de todos aqueles que não sejam ele próprio. No entanto, este Grande Inquisidor, de forma a alimentar um ego e vaidade imensa, gosta de se fazer acompanhar, e até mesmo fotografar, junto daqueles que tanto critica.

O DeCampoMaior está a dar as últimas, por isso, aproveita estes derradeiros posts, sem tema mas com muito para dizer, para desafiar os leitores a descobrir o Grande Inquisidor. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

De Volta à Escola

Este dia de segunda feira, foi o dia escolhido, para dar início a mais um ano letivo em todas as escolas do concelho. Este ano, o começo, foi previsto para mais tarde, mas nem por isso surge com menos novidades. A nível nacional, há duas horas obrigatórias de inglês para o terceiro ano, programação de computadores no ensino básico em mais de 600 escolas e uma aposta na língua chinesa. A escola de Nuno Crato mudou bastante, a revisão curricular fez a escola centrar-se num núcleo de disciplinas consideradas fundamentais e estabeleceram-se as metas que tornaram os conteúdos das disciplinas mais mensuráveis e adaptadas a exames.
Por cá, a grande novidade, é sem dúvida, a inauguração do Centro Escolar, onde os alunos do primeiro e segundo ciclo partilharão um espaço moderno e mais eficiente.
Não será pelas instalações que não se obterão bons resultados. Esperemos, também, que o espaço das antigas escolas seja aproveitado de uma forma eficiente e benéfica para a população.

Paixão de alguns poucos, a Educação, devia, pelo menos, ser preocupação da maioria. Que o novo ano seja também um novo começo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

No Fim do verão

No fim do verão as crianças voltam,
correm no molhe, correm no vento.
Tive medo que não voltassem.
Porque as crianças às vezes não
regressam. Não se sabe porquê
mas também elas
morrem.
Elas, frutos solares:
laranjas romãs
dióspiros. Sumarentas
no outono. A que vive dentro de mim
também voltou; continua a correr
nos meus dias. Sinto os seus olhos
rirem; seus olhos
pequenos brilhar como pregos
cromados. Sinto os seus dedos
cantar com a chuva.
A criança voltou. Corre no vento.

Eugénio de Andrade, in 'O Sal da Língua' 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Refugiado

O tema não podia passar sem comentário, aqui no DeCampoMaior. Milhares de pessoas chegam à Europa, diariamente, vindas de países em guerra. Milhares de pessoas morrem a tentar entrar na Europa, diariamente, vindas de países em guerra.
A questão levanta várias questões morais, a Europa, mas principalmente os Estados Unidos, criaram um problema no Médio Oriente, quando tentavam resolver outros. A guerra do Iraque abriu a porta a outras guerras, e agora milhares de pessoas fogem à procura de uma vida melhor.
Mais do que o tema em si, começa a ser inquietante é a falta de uma resposta concertada e organizada por parte de todos os países da Europa. Estão dispostos a acolher um número indeterminado de refugiados, mas o que fazer para resolver o tema na origem?

E em Campo Maior? Qual vai ser a reação da sociedade campomaiorense quando nos baterem à porta e for necessário acolher algumas famílias de refugiados?

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

973 de 1000

Esta semana, uma reportagem do Expresso sobre o colégio de Eton, lembrou-me que já estamos prestes a começar um novo ano letivo. O título é “Fábrica de Elites” e mostra por dentro o colégio, de excelente qualidade, mas reservado às classes mais abastadas do Reino Unido. É ali que são educados os príncipes e os membros mais influentes da sociedade britânica.
A propósito de Educação, esta semana, várias pessoas me chamaram a atenção para o facto que, no debate entre os líderes dos principais partidos, não tenha sido comentado o tema Educação. Mas, afinal de contas, os políticos dão aquilo que as pessoas querem ouvir, eles estão ali a vender um produto. Se há país que não se interessam pela educação, se só vão à escola no fim do ano ver as notas, ou talvez, no princípio, para pedirem que os filhos fiquem na turma x ou y, então porque hão-de os políticos falar de Educação? Agora, livrem-se os treinadores de futebol deixarem as crianças no banco, porque ai sim, estarão, as soccer mums, a protestar com violência.

Mas, também não entendo porque vos conto estas coisas. Afinal, o blogue devia falar De Campo Maior, e em Campo Maior não há nada disto que vos conto nas prévias linhas. É por estas e por outras que este espaço vai encerrar portas, aqui nunca acontece nada. Este será o post 973…o 1000 é já ali…

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste, 
mas deve haver um caminho 
para regressar da morte. 
Estás sentada no jardim, 
as mãos no regaço cheias de doçura, 
os olhos pousados nas últimas rosas 
dos grandes e calmos dias de setembro. 

Que música escutas tão atentamente 
que não dás por mim? 
Que bosque, ou rio, ou mar? 
Ou é dentro de ti 
que tudo canta ainda? 

Queria falar contigo, 
dizer-te apenas que estou aqui, 
mas tenho medo, 
medo que toda a música cesse 
e tu não possas mais olhar as rosas. 
Medo de quebrar o fio 
com que teces os dias sem memória. 

Com que palavras 
ou beijos ou lágrimas 
se acordam os mortos sem os ferir, 
sem os trazer a esta espuma negra 
onde corpos e corpos se repetem, 
parcimoniosamente, no meio de sombras? 

Deixa-te estar assim, 
ó cheia de doçura, 
sentada, olhando as rosas, 
e tão alheia 
que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Olhe que não, Olhe que não

Quando lerem estas linhas será dia de debate entre os principais candidatos a primeiro ministro de Portugal. O debate ganhou interesse depois das televisões terem atirado para o cabo os outros candidatos, ou seja, para onde ninguém os visse, e depois das sondagens mostrarem um empate técnico entre as duas forças.
Há alguns meses ninguém diria que estaríamos assim. Todos assinariam uma previsão de que António Costa estaria destacado na frente. Mas a verdade é que a Coligação tem feito este milagre de ainda estar na corrida, bastando para isso que o Partido Socialista vá desconseguindo ganhar as eleições, e ainda está para se ver o que acontece com o fator Sócrates. Por isso, esta quarta-feira, Costa precisa ganhar para desfazer o empate e Passos que não perca, porque o empate vai servindo.
A televisão tornou-se fator crítico nestes momentos. Recorde-se o debate Nixon vs Kennedy, ou se preferirem o nosso Soares vs Cunhal. Estes últimos, num debate de mais de três horas, dividiram Portugal, e quando Soares acusou Cunhal de querer implantar uma ditadura em Portugal, este último, retorquiu com a famosa frase “Olhe que não, Olhe que não”. Estávamos em 1975, o 25 de novembro estava ao virar da esquina.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Ficção da Realidade

Tom Clancy, escritor, autor de, por exemplo, “Caça ao Outubro Vermelhor” disse uma vez que a diferença entre a ficção e a realidade é que a ficção tinha que fazer sentido. Acordados para a realidade, depois de passados os efeitos opiáceos das nossas Festas, batemos, com estrondo, na questão dos migrantes vindos da Síria. Uma fotografia de uma pequena criança, sem vida, numa praia turca, desperta os sentimentos de todos, sacudindo a globalização da indiferença. Como sempre o problema não se resolve nas consequências, mas sim nas causas. Não basta acolher, não poderemos acolher todos, deve-se é resolver o problema da guerra.

Quando o muro caiu em 1989, pensou-se que viveríamos num mundo melhor, mas surgiram outros problemas. O mundo evoluiu mas a devastação da cultura tem sido enorme, e com isso, continuam a querer entrar pessoas medíocres para a política. Veja-se Donald Trump, ou o presidente da Hungria. Pessoas que estão a criar e a legitimar mais muros. Infelizmente, também os há por cá, porque as eleições legislativas estão a chegar e já se vê as trocas de cadeiras. Oxalá tudo isto fosse ficção, e não a realidade, porque, pelo menos, tudo faria sentido.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Festas das Flores – Parte III

Com este post termino a trilogia dedicada às Festas das Flores, edição 2015. Muito tinta foi derramada, para não dizer sangue, suor e lágrimas, devido ao tema das pulseiras. Foi, efetivamente, as primeiras Festas onde esta modalidade de entrada existiu. A polémica veio dos critérios aplicados a residentes. Muitas críticas e muitos reparos nos dias em que as pulseiras foram distribuídas, mas felizmente tudo se resolveu.
Quantos aos visitantes, penso que poderão ter sido em menor número que em edições anteriores, mas também penso que a receita poderá ter sido superior. Esperemos que este modelo assegure a esperada sustentabilidade.
Mas, para além dos números, é bom ver pelas ruas campomaiorenses espalhados por esse mundo fora. Já uma vez chamei à atenção para a necessidade de trazer esses campomaiorenses noutros momentos que não as Festas. Seria bom celebrar a campomaioralidade, assim como é bom passear por ruas, que noutros momentos estão em completo esquecimento, em Oblivion profundo, mas que parecem surgir apenas nas Festas, como a Soalheira, o Curral dos Coelhos ou a Aldeia de Pastor.

Venha de lá esse reconhecimento da Unesco, e haja Festas das Flores. Até 2019!

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Aroma a Flores

Neste segundo post, da trilogia dedicado às Festas, destaco a qualidade dos trabalhos e a candidatura a Património Imaterial da Unesco.
Quanto à primeira, e apesar de não ser uma opinião unânime, foram mais as pessoas que me manifestaram que a qualidade dos trabalhos foi superior nesta edição. O castelo “à Palácio de Belém” foi o destaque maior, mas também me falaram muito na Rua das Flores Negras ou na Mouraria.
Esta edição das Festas das Flores ficará, para sempre marcada, pela entrega da candidatura a Património Imaterial da Humanidade. Os técnicos da Unesco andaram por ai, materializando o esforço da comissão e, no fundo, de todas as pessoas que trabalharam, de uma ou de outra forma para as Festas das Flores. Esta avaliação será demorada e parte de uma ideia, já com alguns anos, muitas vezes registada e apontada aqui no De Campo Maior. Todos confiamos que o processo será coroado com êxito, e seria muito bom para Campo Maior, juntar-se a Elvas, Évora e Cáceres como locais distinguidos, e por consequência de interesse acrescido para turistas.
Atrevo-me a deixar uma proposta, que já me disseram ser ousada, para a próxima edição. De forma a mantermos a inovação e a diferenciação poderiam as ruas ter também o aroma a flores. Hoje já existe essa tecnologia, o que elevaria a experiência sensorial de quem nos visita. Passaríamos a estar em 4D se preferirem o termo. Sabendo que o Sr. João Rosinha visita este espaço confio que coloque esta possibilidade nos seus apontamentos. A ideia cedo-a de graça, afinal trata-se que Campo Maior esteja sempre um passo à frente.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Desolação

Quem ler este post, logo pela manhã, na segunda feira, estará decerto a regressar a uma certa normalidade, abalada por uma semana de Festas.
Quem ler este post, logo pela manhã, deverá ter andado numa semana de intensa alegria, mas encontra-se agora em profunda desolação. A alegria da noite da enramação contrasta com a desolação de ver flores e papeis pelo chão. Mas é assim a festa, é assim o ciclo de um evento que teima em sobreviver, reinventando-se a cada ano.

Não me alongarei hoje muito, durante a semana farei o balanço que será, obviamente, uma opinião do DeCampomaior. Por hoje restam apenas as recordações, ainda muito vivas, da festa. Passem, o melhor possível, esta segunda feira de desolação.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Venha a Festa

Será este o último post do DeCampoMaior antes das Festas. Antes, e durante, porque o DeCampoMaior voltará depois das flores caírem ao chão.Não direi muito hoje que não tenha dito antes, deixo o desejo que tudo corra bem e que a Festa seja excelente para todos. Pontos de interesse haverá, com certeza, antes, durante e depois das Festas. Desde já os preparativos, durante saber se a pulseira fez abrandar o fluxo de visitantes e depois, se o débito e o crédito faz as contas terem um resultado que pague as despesas. Acima de tudo, como dizia uma cantiga das Saias:
Já dizia a minha Avó
Encostada ao seu burdão
Não acabem com as Festas
Que é a nossa tradição

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Já se contam os dias, ainda se fazem flores.

Já se contam os dias, já se fazem planos, já se folheiam os programas e ainda se fazem flores. São assim os dias que antecedem as Festas. Começam a ver-se caras desconhecidas e as caras conhecidas, mas perdidas, há muito, pelos caminhos da vida.
E mesmo quando abri o Expresso, encontrei uma reportagem sobre as Festas, com uma visita a uma das nossas ruas.
Páginas antes, no mesmo Expresso, leio que se vai exibir toda a obra de Jacques Tati, neste final de verão, em Lisboa e Porto, mas que a mesma obra fica disponível nos circuitos comerciais, ou seja disponível para municípios que a queiram exibir (ai é? – esta expressão foi uma mensagem subliminar). O cinema de Tati evoca, muitas vezes, a liberdade do olhar, passam-se coisas em simultâneo no plano, a câmara não conduz o olhar, mas antes oferece ao espetador motivos de interesse, decidindo este onde se fixar.
São assim, também, as nossas Festas. Há vários motivos para se olhar e vários pontos para dirigir a nossa atenção. E basta ler esta reportagem sobre a visita ao serão da Rua da Canada. Várias pessoas, diferentes formas de estar, reunidas num só espaço. Penso que a cola e os dedos doridos são democráticos, estão em todas as mãos de forma igual, sejam aristocratas ou não, sendo jovens ou menos jovens. Esta imagem, que se repete em muitas ruas, dava um plano para um filme do Jacques Tati.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O Recreio

Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar ---
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

--- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

--- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

--- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...

Mário de Sá Carneiro

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Emprenhar pelos ouvidos

Nestes dias que antecedem as Festas, em que cresce, a todo o momento, o entusiasmo e uma certa ansiedade, tenho procurado centrar-me em escrever sobre Campo Maior apenas. Hoje já soaram as primeiras músicas pelo sistema de som, que vai ecoar por toda a vila durante o evento. Exalta-se a Campomaioralidade e, até alguém me falava, hoje, das expressões da nossa terra. De entre estas sempre gostei da “Emprenhar pelos ouvidos”. Pus-me à procura da origem da expressão, e parece que não é muito nossa, apesar de ter encontrado, entre nós, muito quem a use. A origem é evangélica, é referido no Evangelho apócrifo de Mateus que a Virgem, quando escutava a Anunciação, o verbo divino, terá penetrado pelo ouvido. Aqui fica a origem mais provável, agora que cada um a utilize da forma mais evangélica que conseguir.

E para fechar, diziam-me hoje também, que depois das festas estávamos a meio do mandato camarário. Por coincidência, ou talvez não, surgiu, nas redes sociais, uma bela troca de piropos, entre o antigo presidente da junta de Degolados e o atual. Dois textos densos, pesados, acusatórios, onde nem sempre o verbo foi bem tratado e a palavra surgiu mais em força do que em jeito. Parece que a segunda metade do mandato será mais emocionante para comentar, pena o DeCampoMaior terminar antes. Mas até lá, desfrutem do ambiente das Festas e não emprenhem pelos ouvidos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O verão está a meio...

Meio mundo em férias, meio mundo nas praias. É assim o ritual, que se repete anualmente. Curiosamente, isto das férias para a classe trabalhadora, teve como grandes impulsionares alguns ditadores. A Frente Alemã para o Trabalho promoveu aquilo a que se chamou “Kraft durch Freude” (força através da alegria) para que os operários pudessem desfrutar de férias, que nunca tinham tido antes. Hitler acreditava que trabalhadores felizes eram mais produtivos.
Também entre nós, Salazar, promoveu o Instituto Nacional dos Tempos Livres (INATEL), sendo criado a primeira colónia de férias, na Costa da Caparica.
Desde então os hábitos pouco mudaram, os portugueses vão de férias, maioritariamente no verão, apesar de começar a haver quem distribua o descanso ao longo do ano. O fecho das escolas condiciona a escolha do período. Não ter quem guarde os filhos “obriga” ao mês de Agosto, preferencialmente.
O que mudou é aquilo a que os psicólogos chamaram Síndrome Pós Férias. Antes, os trabalhadores estavam o mês de férias na caravana, e no dia seguinte iam trabalhar como se nada. Agora, quando se volta ao trabalho, os psicólogos encontraram, depressões, tristeza e diarreia, entre outras maleitas.

Para finalizar, falo de outros rituais de verão. Ainda não ouvi nada que considerasse a música do verão, mas parece que a roupa, é o macacão, que soube agora chamar-se “jumpsuit”. O verão está a meio, desfrutem-no…

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Resistência na Curpi

Conta-se que Salazar, avisado da descoberta de petróleo, no enclave de Cabinda em Angola, teria exclamado: “Valha-nos Deus, só me faltava mais esta!”. A frase resume muito de como era a ditadura em Portugal: cinzenta, triste e limitadora da alegria e liberdade das suas gentes.
Quem ler Gabriel Garcia Marquez, em “O Outono do Patriarca”, poderá também ler uma caricatura de um ditador obscuro que cultiva a ignorância, mas que é a caricatura de todos os antigos ditadores, e, do qual, numa passagem do livro, a mãe diz: “se soubesse que o meu filho seria presidente tinha-o mandado à escola”.
Não será pois perda de tempo, que no domingo, nos aproximemos da Curpi para ouvir, a apresentação pública do livro “A Resistência Antifascista em Campo Maior”, pela voz do seu autor José Leão. Serão memórias de quem viveu, na primeira pessoa, a vida com as agruras da ditadura, e também da luta e resistência na procura, firme, da liberdade.
Passem por lá, sejam de direita ou de esquerda, pois as ditaduras, fascistas ou comunistas têm ambas o mesmo denominador comum limitação das liberdades individuais.